"O que Lénin e Trotsky não atingiram com o fim de conduzir as forças que dormitam no bolchevismo para a vitória final, será obtido através da política mundial da Europa e América." - Rosenberg 1930

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

galiza e condado portucalense

"A causa da separação de Portugal do corpo da monarquia leonesa não é obscura, nem carece de largas dívagações para definir-se: é a ambição de independência do governador do condado, que o tinha do rei suserano; é o afastamento desta nova região roubada aos sarracenos; é a necessidade de pulverização da soberania, que a aliança desta ideia com a de propriedade, e a ignorância de meios administrativos capazes de manter a ordem em dilatados terrenos, tomam inevitável na Idade média. Portugal separava-se, da mesma forma que o reino da Navarra se dividira em três, e pelos mesmos motivos. Portugal defende a separação; o monarca suserano impugna-a. Debate-se mais de uma vez a questão com as armas; não porque se chocassem os sentimentos nacionais, mas porque os príncipes defendiam o que era, ou julgavam ser, propriedade sua. Estas prímeiras guerras portuguesas não depõem decerto de um modo particular em favor da independência, porque eram a lei de toda a Espanha, a lei de toda a Europa — podemos dizer assim. É um preconceito fazer do conde D. Henrique o fundador consciente da independência de uma nação, quando o conde apenas cuidava da independência pessoal e própria. O sentimento de independência nacional, a ideia de que os reis são os chefes e representantes de uma nação, e não os donos de uma propriedade que defendem e tratam de alargar, bem se pode dizer que só data da dinastia de Aviz, depois do dia memorável de Aljubarrota.

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A separação de Portugal
O condado portucalense, criado nos últimos anos do XI século a favor do conde borguinhão D. Henrique, genro de Afonso VI, pouco tempo existiu sob o regime de uma vassalagem indiscutidamente reconhecida. Era essa a época em que a Espanha tendia a constituir-se num sistema de Estados independentes, á medida que sucessivas regiões, iam saindo, de sob o dominio muçulmano, para o dos descendentes dos godos asturianos, ou dos seus actuais aliados; e o condado portucalense obedecia a esta tendência geral, no empenho que o seu conde não mais encobriu desde a morte do sogro.


É com efeito da data do óbito de Afonso VI que deve contar-se a era da independência de Portugal ; embora por largos anos ela seja mais uma ambição do que um facto; embora essa ambição traduza um pensamento que os acontecimentos posteriores da historia impediram se realizasse. Qualquer que fosse o valor dado no XI século á expressão geográfica de Portucale, é facto provado por todas as memorias e documentos desses tempos, que para ninguém deixava de considerar-se o território de entre Minho e Mondego como parte da Galiza. O facto da constituição do condado de nada vale contra esta opinião; porque demasiado se sabe que a formação dos Estados medievais, na Península e fora dela, jamais obedecia a prescripções geográficas ou etnológicas. Não se atribua pois a causas desta ordem, nem á consciência de uma solidariedade nacional, o facto da desmembração da Galliza dos fins do XI século. A cisão que o Minho demarcou obedeceu apenas a motivos de ordem politica.

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Nos primeiros três séculos, isto é, na primeira época da historia portuguesa, a independência é um facto originado no merecimento pessoal dos chefes militares dos barões de áquem Minho. Nacionalidade propriamente dita não a há; ou pelo menos não no-la revelam os monumentos históricos, unânimes, também, em revelar uma ambição colectiva ou social que se estende a toda a Galiza. Ao merecimento pessoal reune-se, nos primeiros monarcas portugueses, a circunstância de serem os interpretes deste sentimento. Por isso a tendência permanente e o principio claramente definido da politica portuguesa, nos primeiros séculos, é unificar a Galiza, constituindo a noroeste da Península um Estado tão homogéneo, como o Aragão ou a Navarra a nordeste.
Se nesta primeira época da nossa historia o pensamento oculto que dirige com maior ou menor consciência a politica, é incontestavelmente o da hegemonia de Portugal na Galiza, seria absurdo supôr que, ao lado deste principio, decadente desde certa época, se não fossem também manifestando de um modo correlativo, e cada vez mais pronunciado, os sintomas da deslocação do centro vital — digamos assim — do corpo da nação.

A circunstância que mais decisivamente determina este caracter da nossa historia primitiva é a conquista dos territórios sarracenos de áquem Mondego, levada a cabo pelos barões portugueses, sem os auxilios do suserano de Leão. É este movimento que, principiando por quebrar os laços de solidariedade entre os galegos leoneses e os portugueses, vai gradualmente adicionando a estes ultimos os lusitanos (seja-nos licito dizer assim, para mais claramente definir o nosso pensamento) até ao ponto de os últimos predominarem na fisionomia posterior da nação, transferindo de Guimarães e de Coimbra, para Lisboa, a capital do reino ; fazendo substituir á vida rural, primeiro quase exclusiva, a vida comercial e marítima depois predominante e quase absoluta.

A primeira época da história portuguesa oferece pois á observação do crítico dois movimentos, opostos num sentido, concordantes num outro que é o da afirmação positiva da independência. Mas, se essa afirmação, terminante nas guerras leonesas, e também nas sarracenas, expríme de um lado a politica da hegemonia na Galiza, do outro exprime, de um modo todavia inteiramente inconsciente e espontâneo, uma tendência contraria. É a da formação de uma nação lusitana, de que a Galiza portuguesa desce á condição de província ao norte, como o Algarve, mais propriamente turdetano, vem a sê-lo ao sul."


FONTE:  Oliveira Martins;  História de Portugal

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